Tal qual uma estação do ano assim são as curtas relações. Elas vêm por um curto período, nos proporcionam momentos únicos e distintos e se vão. Tiram-no do status quo, alteram nossa temperatura, fazendo-nos crer que não há um futuro, mas somente o presente, o que é um fato. Nenhuma estação é igual à outra. Embora se repitam ano a ano, ainda assim não são iguais. Às vezes é mais quente, outras vezes é menos frio, em determinado ano é possível se perceber mais folhas caídas no chão, e há um tempo em que se floresce como nunca. Vivemos estações. Somos corrompidos da nossa mesmice e quando estamos quase nos acostumando com o tempo, tudo muda, para provar que deveras nada é mesmo permanente ou estável. Alguns vivem muitas estações, outros poucas e há os que vivem só uma. Não há sortudos ou coitados, apenas contingências. Mas, quando se vive muitas, as estações vão ganhando novo sabor, a efemeridade não mais assusta, tudo passa a valer a pena. É como um bom vinho, quanto mais velho, melhor. Aprecia-se e saboreia-se cada estação. Cada momento é único e o que se viva tem seu valor. E quando uma nova estação chega é agraciada e quando chega ao fim se é grato. Tudo na mais perfeita ordem, sem alardes, sem sobressaltos. A ruptura não causa mais tanta dor, embora ainda se sofra. Apenas lembranças são guardadas e, por vezes, revividas, sem rancores. Compreende-se a beleza e a magia de cada momento, sem esperar que seja eterno. Não há devaneios nem falsas expectativas. Não há muito o que esbravejar com o inevitável, as estações vêm, elas acontecem! E se vão... e ainda que eu me expresse tão metaforicamente, eu só poderei falar de você quando esse inverno passar.
sexta-feira, 15 de julho de 2016
domingo, 3 de julho de 2016
Não precisa ser vermelho nem preto
Por muitos anos revezo as cores que pinto minhas unhas em preto e vermelho. Uma semana vermelho, outra semana preto. Eventualmente um nude para dar um ar de elegância. E das vezes que me permiti passar um clarinho, me senti angustiada, com uma sensação de que não estava sendo eu. Isso porque passar preto ou vermelho nas unhas me dava a impressão de estar sendo mais mulher, mais segura, mais forte. Como se uma cor de esmalte pudesse me definir.
Até que hoje deparei-me com um esmalte rosa por qual me apaixonei, mas não era qualquer rosa, não era piegas nem infantil. E se fosse? Qual problema teria? Uma cor de esmalte realmente me define?
Daí que me vi pensando quantas coisas achamos que tem que ser de um jeito ou de outro quando simplesmente pode ser tudo, sem que precisemos nos identificar com algo especificamente e, assim, rotular. Quem de fato somos vai muito mais além de qualquer expressão externa e contexto que estejamos inseridos. Se partir da premissa de que pouco se conhece a si próprio, porque então não ousar experimentar todas as cores? Porque me limitar? Porque não viver tudo o que há pra viver?
E também agora penso o porquê de querer transmitir ser isso ou aquilo para as pessoas... Usar um esmalte vermelho poderá de fato impor um ar de "eu sei para o que vim e não ouse me intimidar" ou "sim, sou poderosa e sexy" ou é simplesmente só uma cor que não quer dizer nada? Terceira opção! Ok... pensando bem... talvez seja isso mesmo... não quer dizer nada! E ainda que o diga, quaisquer informações nesse contexto, que ficam além, isto é, aquém da alma dizem muito pouco sobre alguém. No fim das contas, tentamos passar ou vender uma imagem com o único intuito de sobreviver/defender/atacar...
Por fim (espero que haja tempo para desfrutar dessa conclusão), vejo, o que pode parecer uma constatação inútil ou óbvia demais, é que não há a menor necessidade de ser vermelho ou preto. Nada nem nunca precisa ser de uma maneira só, embora teimamos que sim, enquanto seguimos vivendo menos ao sermos os mesmos.
segunda-feira, 20 de junho de 2016
Dolce Far Niente
Dia desses, revendo Comer, Rezar e Amar, um filme que volta e meio me pego aprendendo um pouco com ele, apesar de parecer ser puro entretenimento, despretensioso, na verdade, pelo menos, para mim, sempre traz umas reflexões interessantes. Cada vez que o vejo, é uma frase que assimilo, um novo olhar sobre a vida me é apresentado. A bola da vez foi aquela expressão italiana "Dolce far niente" que significa "a doçura de não fazer nada".
E esse fim de semana foi um belo exemplo disso. Como pode ser doce o dolce far niente...estar consigo próprio apreciando a delícia de desfrutar o ócio, no mais puro relaxamente... e a depender da companhia, pode ser mais doce ainda, além de prazeroso... até suspirei agora, se vocês pudessem me ouvir.
Quando se é uma mente inquieta, que necessita estar sempre fazendo algo produtivo, útil, não fazer nada pode trazer uma grande angústia e um imenso sentimento de culpa. Mas, dessa vez, eu me entreguei à arte de não fazer nada, saboreei cada momento, não senti necessidade de correr para um livro, naquele esquema de "pelo menos estou lendo". E isso se deu tranquilamente, suavemente, felizmente. E quando aqueles pensamentos macabros insistiam em me torturar em razão do delicioso ócio, eu os deixava ir, rindo da insensatez e da leviandade de uma mente que insiste em nos trair.
Só o vivendo para entender o quanto o ócio é importante. É aquela história, temos sempre que buscar o caminho do meio, o equilíbrio, e acabo de ter a leve sensação de já ter escrito sobre isso no blog. Mas, que seja, vale novamente a reflexão. Não dá para levar uma vida só de afazeres e obrigações. Não mesmo. Não sei nem porque esse desespero todo se nem vivos sairemos. Mais do que pelo simples prazer, não fazer nada é uma forma genuína de apreciar o presente, o hoje, sem correr deliberadamente por algo que está inalcansável, lá longe, no futuro.
Ademais, não estou aqui louvando o ócio eterno, diário, caso contrário, seria outra coisa, menos o dolce far niente. A conclusão é uma só: eu quero mais e mais praticá-lo. E que sejam regados a vinhos e a amores.
sábado, 11 de junho de 2016
Meditando
Lá fui eu viver a experiência de um curso de meditação. Na busca por si e entrando em contato com todo esse universo da espiritualidade, em que se busca uma vida mais zen, mais tranquila, feliz, onde a paz reina, uma orientação é muito clara e comum a todos: medite, medite, medite!
Assim, não tem muita escapatória. Não por obrigação nem por imposição, mas com o intuito de querer estar bem comigo mesmo, afinal, nunca como antes estive tão consciente de que todas as respostas estão dentro de nós e seja lá o que "eles" fazem contra a gente, a verdade é que o que nos acontece tem tudo a ver consigo próprio do que com qualquer outra pessoa. Então não adianta ficar apontando o dedo não, o lance é se encarar, olhar para dentro, lidar com os dilemas e... meditar!
De alguns meses para cá, tenho buscado silenciar a minha mente, tirar uns dez minutinhos para ficar comigo mesmo. Só que essa brincadeira não é tão fácil nem tão simples como possa parecer. Vamos combinar que a postura, para quem passa o dia sentado no trabalho em frente a um computador e que quando chega em casa, fica estirado em uma cama, isto é, prática zero sobre manter a coluna ereta enquanto sentado, não é lá muito fácil, para não dizer absurdamente difícil.
A verdade é que por muitas vezes, para não dizer todas, sentava naquela postura, achando-me a zen, para, em questão de minutos, para não dizer segundos, deitar-me e achar que poderia continuar meditando deitada, com os olhos fechados, sem pegar no sono. Olha que pessoa ingênua, para não dizer iludida ou, no mínimo, sem noção.
E os pensamentos? Sim, somos muito divertidos, para não dizer loucos. Impressionante nossa capacidade de mudar o pensamento e ir para assuntos os mais diferentes possíveis no mesmo segundo, se bobear. Como alguém pode estar pensando no que irá almoçar amanhã e, na mesma hora, vagar para: será que ele vai me ligar? Os assuntos se comunicam e eu que não estou conseguindo ver as conexões? Será?
Enfim, o curso foi extremamente bem recomendado por uma amiga, e já que eu estou nessa busca de mim comigo mesma, me joguei. E fui feliz. O professor deu tantos insights sobre como "adestrar" a nossa mente, sobre como podemos melhorar nossa qualidade de vida observando os jogos que nossa mente faz, que valeu a pena demais cair da cama sábado e domingo para ir ao curso. Sem falar as dicas sobre como meditar que foram mega válidas. Hoje mesmo, ao meditar, durante 20 minutos, só mudei de posição umas 10 vezes, mexi o pescoço umas 40 e quase levantei para ir ao banheiro umas 5, ou seja, melhorei bastante. Além do mais, consegui me concentrar melhor, ter mais atenção no momento, observar o agora, praticando a meditação da atenção plena.
E assim sigo eu, fazendo de um tudo para ter uma vida leve e tranquila nesse mundinho um pouco confuso, para não dizer perturbado pra cacete. Só meditando mesmo para dar conta do recado! Não é brincadeira não, minha gente!
E assim sigo eu, fazendo de um tudo para ter uma vida leve e tranquila nesse mundinho um pouco confuso, para não dizer perturbado pra cacete. Só meditando mesmo para dar conta do recado! Não é brincadeira não, minha gente!
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Simples Assim
Há aquelas pessoas que não gostam de muita coisa. Não gostam de
bebidas nem de carros luxuosos. Não frequentam hotéis extravagantes
nem restaurantes onde tem o Chef mais badalado do momento. Não usam
roupas de marcas. Não ostentam nenhum luxo por menor que seja. São
integralmente simples, no mais absoluto significado que essa palavra
possa ter. São raras, mas olha que eu até conheço algumas. Coisa
engraçada de se ser. Simples. É. Nos dias de hoje, se é. São tão
simples e tão lindas.
Esse blá, blá, blá todo iniciou-se porque tenho um presente para comprar para uma dessas pessoas simples, missão difícil. Mas, meio sem querer, acabei adentrando na temática simplicidade, que não é tão simples como possa parecer. Ser simples talvez seja mais complexo que essa nossa mania de querer tudo, de achar que só é feliz se tiver isso ou quando conquistar aquilo, numa desenfreada busca sem fim de coisas que jamais nos farão verdadeiramente felizes.
Esse blá, blá, blá todo iniciou-se porque tenho um presente para comprar para uma dessas pessoas simples, missão difícil. Mas, meio sem querer, acabei adentrando na temática simplicidade, que não é tão simples como possa parecer. Ser simples talvez seja mais complexo que essa nossa mania de querer tudo, de achar que só é feliz se tiver isso ou quando conquistar aquilo, numa desenfreada busca sem fim de coisas que jamais nos farão verdadeiramente felizes.
O ato de ser simples requer muita coragem.
Requer dizer não o tempo todo para tanta coisa que querem te enfiar
goela a dentro. Significa não se contaminar nem se submeter a um
turbilhão de coisas que se passam do lado de fora. É viver com o
que a terra oferta e isso ser o suficiente.
Não há necessidade de
aparentar ser o sabe-tudo, ou o que já viajou o mundo inteiro, ou o
que morou em Paris ou Nova York. Não precisa ser o que frequenta o "restô" do momento ou o que usa peças do estilista queridinho da
estação. Não há menor necessidade de pertencimento. Esse mísero
sentimento que nós, os não simples, temos.
Ser simples é vagar por
ideias, sentimentos, mas também sem complicar muito. Não há
rompantes de paixão. A simplicidade também simplifica o amor.
Enquanto nós, os não simples, fazemos tanto drama. É. Ser simples
não é nada fácil. É por demais complexo.
Ainda continuo sem saber
o que presentear. Talvez uma flor, um livro, quando sei que o meu
sorriso seria o suficiente. Conceito difícil de aceitar, mas é simples
assim.
terça-feira, 24 de maio de 2016
QUE DÓ!
Dia desses me peguei tendo um daqueles sentimentos tão baixos, tão dignos de dó, que era a própria dó.
Sentada em um dos restaurantes do Pontão, apreciando aquele ar de praia, com uma vista abençoada por Deus e bonita por natureza, rolava uma música ao vivo. Uma MPB gostosa que acalentava o coração, quando não nos fazia sofrer ao lembrar dos ex-amores. De todo modo, bonito estava e muito agradável também.
Empolgada com a música e com todas as sensações que ela estava me proporcionando, observei que ao final de cada música eu batia umas palminhas de leve, timidamente, meio sem gracinha. Enquanto nas outras mesas, as pessoas continuavam suas conversas como se aquela boa música não estivesse impregnando o ambiente com tanta magia e leveza. Daí que bateu no meu peito uma dó. Dó daqueles músicos que não foram aplaudidos. Dó porque no final da apresentação eles recolheram seus pertences e foram embora sem um muito obrigada, sem nada, como se jamais tivessem feito qualquer apresentação ali, naquele recinto.
Empolgada com a música e com todas as sensações que ela estava me proporcionando, observei que ao final de cada música eu batia umas palminhas de leve, timidamente, meio sem gracinha. Enquanto nas outras mesas, as pessoas continuavam suas conversas como se aquela boa música não estivesse impregnando o ambiente com tanta magia e leveza. Daí que bateu no meu peito uma dó. Dó daqueles músicos que não foram aplaudidos. Dó porque no final da apresentação eles recolheram seus pertences e foram embora sem um muito obrigada, sem nada, como se jamais tivessem feito qualquer apresentação ali, naquele recinto.
Pensando bem, triste de mim. É bem provável que tais músicos - eles e outros - não estejam nem aí para quem está sentado do lado de lá. Pode ser que eles curtam tanto aquele momento que vivem, uma parada deles com o instrumento que tocam, inclusive sem se importar se agradam ou não. A música é uma das poucas coisas da vida que pode deixar alguém meio fora de si, sem se preocupar muito com o que se passa ao seu redor. Tenho essa leve impressão, embora não toque nada. Mas, só o fato de apreciar me faz ter algumas vezes essa sensação, de conseguir sair do meu mundo e ir para outra dimensão, sem uso de qualquer tipo de droga. Das coisas mais gostosas e intensas de se viver. Uma música ao tocar uma alma, liberta-a de todo e qualquer sofrimento, mesmo que momentâneos.
Boba de mim que fiquei meio constrangida, meio sem graça, com dó... e quantos equívocos a gente vai cometendo nesse sentir... sem saber exatamente o que se passa dentro de cada um...
Boba de mim que fiquei meio constrangida, meio sem graça, com dó... e quantos equívocos a gente vai cometendo nesse sentir... sem saber exatamente o que se passa dentro de cada um...
sábado, 14 de maio de 2016
DOS ENCONTROS
Essa semana fui a um bar acompanhado de um amigo daqueles que é uma dádiva da vida, caprichado e embrulhado para presente por Deus. E com ele você não precisa de muita coisa para ser feliz e dar boas gargalhadas. Mesmo estando apenas nós dois, nossa noite foi pra lá de divertida, curtindo um bom jazz, rindo, afinal, ser feliz é uma opção e depende única e exclusivamente da nossa boa vontade.
Daí que ao ir ao banheiro. Ponto. Terei que parar a frase no meio para explicar que uma ida ao banheiro nesse bar não é uma ida qualquer ao banheiro. Uma ida ao banheiro tem um gostinho a mais para aqueles que se jogam na noite para paquerar, ver gente bonita e feliz e quem sabe ainda tropeçar com um possível amor, já que nesse banheiro, homens e mulheres se esbarram num vai e vem frenético, dividem o mesmo lavabo e não venham me dizer que não há nada demais nisso não, porque é mentira. Aquele curto corredor, mais apertadinho, torna os olhares mais atentos, os sorrisos mais fáceis, a proximidade mais evidente. Viva os banheiros unissex!
Daí que ao ir ao banheiro, presenciei uma daquelas cenas tão corriqueiras na noite, em que o homem se aproxima da mulher, puxa conversa, pergunta o que ela faz, ele a faz rir, ela joga o cabelo, faz um charme, coisa e tal, e todo mundo sabe muito bem como se dá esse mise en scéne. Coisa mais deliciosa de se viver, vamos combinar! Então que eu lá no box fiquei prestando atenção nessa cena, dois jovens, cheios de vida, bonitos, tanto ele como ela. E quando fui lavar minha mão, fiquei observando o interesse de ambos um pelo outro, o olhar mais aceso, o sorriso tão gostoso, o corpo exalando desejo, como se fosse um daqueles encontros marcantes. Nisso, ele perguntou o que ela estava bebendo e no que ela respondeu, ele sugeriu: vamos brindar? Ela sem titubear, respondeu: claro, vamos brindar! Realmente. Há tantos motivos para brindar. Brindar à vida, à noite, ao amor, aos encontros, aos banheiros unissex e toda as possibilidades que nos são ofertadas diariamente.
Quando voltei para minha mesa, fiquei observando o movimento desse tão recente casal, ainda que tenha sido só por aquela meia hora, eles formaram um belo e simpático casal. Ele a apresentou para os amigos dele. Ela o levou até a mesa onde ela estava com vários amigos, o apresentou e eles ficaram ali conversando, sem parar de se olharem, compenetrados, hipnotizados um pelo outro.
Quando voltei para minha mesa, fiquei observando o movimento desse tão recente casal, ainda que tenha sido só por aquela meia hora, eles formaram um belo e simpático casal. Ele a apresentou para os amigos dele. Ela o levou até a mesa onde ela estava com vários amigos, o apresentou e eles ficaram ali conversando, sem parar de se olharem, compenetrados, hipnotizados um pelo outro.
Fiquei curiosa em saber o que vai dar desse encontro. Terá sido só aquele encontro ali, sem um mais depois? Será que já se encontraram novamente e se falam várias vezes por dia? Será que irão engatar um namoro e até quem sabe dividir o teto algum dia? Farão planos juntos, dividirão sonhos e irão ao cinema todo domingo? Ou terá sido apenas um deleite de uma noite animada em que os sentidos ficam mais aguçados por conta do álcool? Será que se encontrarão algumas vezes e perceberão que não há a menor afinidade? Ou quando estiverem saindo juntos um deles sentirá que ainda ama o ex? O que será daquele encontro inusitado ou, por assim dizer, nem tanto inusitado?
De uma topada no banheiro, tantas coisas podem acontecer, inclusive o nada. Tudo pode ser. Tudo pode não ser. São inúmeras as possibilidades. E muitos os encontros. Não temos acesso aos 7 bilhões de pessoas, mas é capaz que tenhamos a alguns milhões, eu acho. E olha o quanto de vida, estórias, momentos e experiências podem se encontrar e se compartilhar. A vida é mesmo surpreendente.
quinta-feira, 5 de maio de 2016
FRIDA KAHLO
A exposição com obras de Frida Kahlo e outras artistas mexicanas aterrisaram na Caixa Cultural em Brasília e lá fui dar aquela conferida básica, claro! Considerada integrante do movimento surrealista, Frida, na verdade, não queria pintar o inconsciente, mas a tragédia e o sofrimento, tão peculiares ao longo de sua vida. Prova disso é a sua célebre frase: "Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade".
Frida é conhecida por seus autorretratos, dizia ela que se auto pintava pois se considerava sozinha e, por fim, com quem mais tinha contato era consigo própria. Observando as obras de Frida em que ela se auto retrata, percebi um olhar de profunda tristeza. Com efeito, ela nunca negou seu sofrimento diante de tantas adversidades pelas quais passou, dentre elas uma poliemielite na infância, um acidente de carro na adolescência e três abortos.
Frida era muito autêntica. Numa época em que a moda era se comportar como as européias, ela se identificava com as suas origens indígenas e se vestia como as mexicanas de outrora, em um estilo que tendia para o artesanato, com muitas cores e personalidade.
Fico a pensar o quanto deve ser gratificante e ao mesmo tempo dolorido ser diferente, ir contra os "padrões" pré-estabelecidos. E isso não só pelo fato de se vestir. Numa época em que temas como bissexualidade era tabu, Frida manteve relações amorosas com mulheres, embora fosse casada com Diego Rivera, um grande pintor mexicano com quem manteve uma relação muito conturbada regada a traições de ambos. É difícil saber que as pessoas te apontam porque você transcende o modelo imposto. É preciso muita autenticidade e coragem para ser você mesmo, quando isso implica em ir contra a maré.
Como precursora de uma agitação artística de mulheres mexicanas, Frida saiu na frente e exatamente por isso é tão conhecida. Eu amei a exposição, até porque, definitivamente, eu amo o surrealismo, embora Frida não estivesse exatamente engajada com esse movimento. A questão é que eu realmente tenho uma queda pelo abstrato, pelo irreal, numa perspectiva de transcender o que é real e palpável. A vida precisa de sonhos. Ainda que sejam loucos e transgressores.
Como precursora de uma agitação artística de mulheres mexicanas, Frida saiu na frente e exatamente por isso é tão conhecida. Eu amei a exposição, até porque, definitivamente, eu amo o surrealismo, embora Frida não estivesse exatamente engajada com esse movimento. A questão é que eu realmente tenho uma queda pelo abstrato, pelo irreal, numa perspectiva de transcender o que é real e palpável. A vida precisa de sonhos. Ainda que sejam loucos e transgressores.
quinta-feira, 28 de abril de 2016
PERIGO, HÁ VIDA!
É tanto perigo o tempo todo. É dengue, é H1N1, é bactéria. É sair de casa e sofrer um acidente. É uma infecção urinária ou de garganta. É o cachorro do vizinho que te morde. É o tropeção que você dá e bate a cabeça.
A gente até sobrevive, mas às vezes aos trancos e barrancos. O perigo se reveste de tantas maneiras e formas. Cada cilada. É a palavra que te fere. É a mágoa que ressente. É o sonho que foi esquecido. É o olhar que reprova. É o amor que não foi correspondido.
E as relações que amenizam as dores, muitas vezes nos castigam. É a perda do filho. É o amigo que não nos liga mais. É o calor da paixão que se esvai.
É vida demais para corações tão pequenos como os nossos. É muito perigo para pouca fé. É muito sofrimento para tanta falta de sabedoria. Somos tão imperfeitos. E ainda insistimos tanto na vida, embora há quem desista. Seguimos corajosos por ingenuidade.
Pagamos um preço muito alto para ver o sol brilhar e a onda do mar bater sobre as pedras, para se ter noites de lua estreladas em que beijos ardentes nos consome, para se ter abraços que nos confortam em que é possível tornar-se um só, para compartilhar olhares apaixonados - quanto sentimento existe dentro de nós!
A vida cobra muito caro para se ver o sorriso sincero de uma criança, para se ter nos braços um filho, para amar e ser amado por um cachorro (das coisas mais belas e doces da vida). E por falar em doce, é muito perigo que vivemos para poder se lambuzar de sorvete, para se emocionar com um bom filme e apreciar uma poesia.
Que os sorrisos, amores, paixões, alegrias, artes, desejos e devaneios sejam muitos para que os perigos se tornem irrisórios e pequenos diante da imensidão de luz e afeto que compõem essa perigosa, louca e amada vida.
quinta-feira, 21 de abril de 2016
BELA E RECATADA?
Tipo da polêmica que não dá para passar em branco. Porquê? Eu explico.
Cresci em uma família de mulheres fortes e guerreiras, que batalharam muito, que foram para vida estudar, trabalhar, crescer, terem sua independência. Quiseram traçar seu próprio destino, ter voz. Ou, por vezes, foram à luta por necessidade mesmo, para sustentar a família. Mas foram.
Daí que nessa semana me deparo com os ótimos e divertidos memes em função da reportagem sobre a "quase" primeira-dama feita pela Revista Veja, que a denominou como "Bela, Recatada e do Lar", ressaltando tais atributos em pleno 2016 como características dignas de uma mulher. Isso numa época em que nunca se falou tanto sobre os direitos das mulheres e igualdade de gêneros.
Embora eu ache que a independência seja uma das melhores coisas na vida de qualquer pessoa, não vejo problema algum em ser "do lar", desde que seja por opção e não por imposição. Assim como não vejo demérito nenhum em não ser casada e não ter filhos, ao contrário, hoje muitas melhores destoam desse caminho que foi traçado há muito pela humanidade como o caminho da felicidade e optam por viverem sozinhas, sem filhos, dedicar-se à carreira e a um mundo de infinitas possibilidades que não se resume a constituir uma família. Todos os caminhos são válidos e deveriam, no meu ver, se ater aos nossos desejos e vontades e não ao que a sociedade nos impõe. Sociedade essa que durante décadas valorizou e determinou que fôssemos "recatadas e do lar", daí o meu espanto com tal reportagem.
Minha vó, uma das pessoas de maior caráter que já conheci, que Deus a tenha, sempre nos incentivou a estudar, dizendo que o melhor marido que poderíamos ter era um bom emprego. Minha família nunca valorizou casamento, isso nunca foi pauta de conversas nos encontros familiares. Não que isso seja certo. Nem errado. Só quer dizer que minhas primas, minha irmã e eu fomos criadas sob outra ótica, onde o valor estava no que iríamos conquistar em termos de estudo e trabalho. Novos tempos. Minha vó sempre dizia que ela não queria ter casado, que o sonho dela era ter ido para o Rio de Janeiro estudar. Desejo tolhido em razão de uma sociedade machista onde o papel - único - da mulher era casar, ter filhos, constituir família.
Ainda vivemos tempos em que uma mulher expansiva, que faz muito barulho, que tem muita opinião é vista como "barraqueira" ou "machona". Não falo de grosseria ou falta de educação, mas de personalidade, da natureza de cada um. Nem todas nascemos para ser boazinhas, mansas, gentis, falar em um tom baixinho, suave, como se estivesse sussurrando. Não quero uma sociedade em que o valor de uma mulher esteja em ser recatada. Quero sim fazer parte de um mundo onde a mulher pode optar por não se expor, não fazer alarde e também optar por ser espalhafatosa, extravagante, indiscreta, sem ser julgada ou apontada ou discriminada por assim ser.
Belas sempre seremos. Recatadas e do lar nem tanto.
quinta-feira, 14 de abril de 2016
A GENTE MUDA
Uma vez, em um desses meus encontros amorosos, saí com um cara uns doze anos mais velho que eu. Por sinal, uma dessas pessoas que você tem a felicidade de conhecer e o privilégio de ter horas de uma boa conversa, acompanhadas de um bom vinho. Uma pessoa rara pela sua história de superação, por tudo que conquistou e por quem é. Um exemplo a ser seguido e que certamente até hoje me inspira. Se um dia ele ler esse texto, ele saberá que é ele. Você que me denominou "menina mulher". Eu também tenho minhas vaidades e que fiquem registradas.
Nesse encontro, lembro-me como se fosse hoje, utilizando-se dessa expressão bem clichê, dele ter dito que os meus interesses aos 40 não seriam os mesmos de agora, aos 30. Achei tão estranho, não fez muito sentido para mim. Pensei para mim mesma sem querer contestá-lo: como não? Posso até mudar, mas como vou deixar de gostar, de me interessar por esse universo que faz tanto sentido para mim? Pensei assim... como se determinados interesses fossem eternos...
Não foi necessário chegar aos 40 para dar razão a ele. Passados poucos anos, é impressionante perceber e sentir que a gente muda. Do dia para a noite. Num piscar de olhos. Você nem se reconhece mais. Eu era aquela pessoa que pensava assim? Engraçado quando nos colocamos no papel de observador e analisamos o nosso próprio pensamento de tempos atrás.
Vejo por esse blog. O mundo gastronômico para mim era um interesse e tanto. Não que ainda não seja. Amo comer bem, conhecer novos sabores, ir para a cozinha brincar de Chef (metida à besta). Tinha um verdadeiro fetiche em desbravar restaurantes, ter isso como um programa semanal na minha vida. Passou. Até desejava ser crítica gastronômica assim como Julia Roberts no filme O Casamento do Meu Melhor Amigo. Hoje me parece enfadonho.
Não terei o descaramento de dizer que a gente muda para melhor ou que eu me mudei para melhor porque seria muita pretensão da minha parte. Eu que ando querendo abrir mão das minhas pretensões, inclusive, a de ser vaidosa.
E ainda sobre minhas vaidades (as vaidades morais, essas são as piores), até me orgulho de ver que mudo, que não insisto em ser a mesma pessoa, pensando as mesmas coisas, desejando igual e procurando pelo mesmo. Hoje nem vejo muito sentido em ficar procurando. Antes que você me pergunte, eu lhe digo: procurando e buscando pelo nem sei o quê ao certo. Até acho que eu sei, mas eu prefiro dizer que não sei. Eu que antes fazia questão de ter uma resposta para tudo.
É, a gente muda.
terça-feira, 12 de abril de 2016
FALAR AMOR EM VÃO
A palavra amor não deveria ser pronunciada em vão. Chamar alguém de meu amor muito menos. Só poderia usá-la quando o sentir ultrapassasse qualquer entendimento, quando os olhos brilhassem, numa sensação de que o coração fosse quase parar. Porque aí então seria o amor. O meu amor.
Em atos promíscuos, pura luxúria, de satisfação carnal, fala-se meu amor quando não o é. Quanta leviandade nesses nossos tempos. Onde foi parar a devoção ao amor visto em Casablanca ou lido em Gabriel Garcia Marquez?
Meu coração se ressente nesses tempos líquidos, como diz Bauman: nada é para durar. Oh céus! O que a humanidade tem feito daquilo que nos diferencia dos outros animais? Longe de mim tentar qualquer ensaio filosófico, pois correria sérios riscos de pagar o maior mico. Sou apenas uma mulher de seus trinta e poucos tentando compreender o que se passa nos relacionamentos amorosos (se é que assim podemos denominar), lendo Osho e tudo que seja capaz de me fazer transcender. Somos melhores que ontem? Tem certeza? Ou temos sido os mesmos, desde sempre?
Temos estado tão perdidos que não sabemos o que estamos construindo ou fazendo ou querendo, como zumbis numa dinâmica de "é o que temos para hoje". E se a realidade machuca, também não vemos espaço para fazer diferente. Estou sendo tão pessimista, logo eu que tenho fama de ser Pollyanna e brincar o jogo do contente quando não, eu não deveria brincar, porque há muita coisa nesse mundo que - definitivamente - não tem o seu lado bom. Pessimista demais ou realista no ponto certo?
Mas eu ainda acredito em encontros amorosos verdadeiros. Encontros esses em que chamar alguém de meu amor tem significado e essência. Beleza e devoção. E olho agora para o relógio e ele me aponta exatamente 00:00. Isso me faz pensar: seremos tão covardes a ponto de ficar no zero a zero? Eu sei do que lindas histórias de amor podem fazer por alguém. Ainda bem que eu sei. Não, eu não quero ficar no zero a zero nem falar amor em vão.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
OLHOS VERDES
Ele simplesmente se foi. Nem se despediu. Silenciosamente.
Por muito tempo escutei dizer que gatos pretos davam azar. Até o dia que conheci e aprendi a amar o meu gatão dos olhos verdes. Quando nos mudamos para nossa casa, ele já fazia parte do pacote. Até nome já tinha. O ex-dono foi-se embora e o deixou sem nenhuma cerimônia. Sim, eu também fiquei perplexa. Como deixar para trás seres indefesos e dependentes que só lhe dão amor? Ainda bem, pois gratas surpresas de afeto nos foram dadas. Ele no cantinho dele, com seus olhos verdes que gritavam de tanta beleza, foi nos conquistando pouco a pouco. Mesmo com a chegada dos três meninos, nossos atentados e muito amados vira-latas, não houve tempo ruim. Adaptaram-se todos muito bem. Muito bem assim... uma rusguinha aqui, outra acolá. Vamos abrir o jogo. Tivemos que brigar e muito com o Bidu para deixar nosso gatão em paz.
Hoje penso que o que dá azar é reclamar da vida e desejar o mal para os outros. Meu gatão só nos trouxe alegrias e um pouquinho de trabalho, quando em suas aventuras noturnas, voltava todo estropiado e corríamos desesperados até o veterinário mais próximo. Gatinho danado! Aposto que era um belo de um conquistador com aqueles lindos olhos verdes de matar qualquer um de inveja.
Gatos não são como cachorros e não se iluda achando que eles possam lhe devotar o mesmo afeto. Não mesmo. Gatos não são carentes, não te paparicam e, sim, não te dão muita bola. Mas, haverá dias que ele chegará, como quem não quer nada, e irá te adular ou começara a te seguir pelo jardim - durantes aqueles momentos que você para a vida para a apreciar o céu, a lua, o verde - e virá em sua direção e ficará ali do teu lado. Tudo muito espontâneo. Gatos e cachorros não são iguais. E é bom que seja assim. Não há melhor nem pior. São apenas diferentes. Cada um com suas idiossincrasias. E mesmo tendo naturezas diversas, eventualmente presenciávamos trocas de afeto do nosso gatão com um dos meninos. Meg e ele se amavam. Tenho impressão que ela deve chorar, longe da gente, a ausência que ele lhe faz. Respeito e harmonia podem e devem sempre prevalecer, principalmente quando não falamos a mesma língua.
O espírito dele era livre, solto ele ficava, solto ele se foi. Sinto paz ao lembrar dele. Foram sete anos de convívio e amizade. Seus olhos verdes ficarão para sempre em minha memória.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
QUANDO O CERTO É ERRADO
Quando ser certinha já não basta. Quando querer fazer tudo certo
tem um peso. Quando pensar em que tudo tem que ser muito correto é
um saco. Quando tentar ser perfeita dá nos nervos. Quando atender as
expectativas alheias custa muito caro. Quando o certo é errado.
Porque ser certo o tempo todo cansa. Cansa muito. E enche o saco pra
caramba. E você se torna uma pessoa chata pra cacete. Porque não
basta você ser certo, você quer que todo mundo também o seja. Haja
saco. Haja paciência. Haja estômago. Haja certeza. Haja arrogância
também. Porque tem algo mais arrogante do que se achar o dono da
verdade?
Vamos deixar o erro apontar ou, simplesmente, parar de
apontá-lo. Aceitar o outro do jeito que se é. Deixar cada um ser
como bem entender. Ser livre. Livre-se. Livre-se das certezas, do
certo. O certo existe?
Muito peso passar uma vida tentando fazer tudo
certinho o tempo todo, atento para qualquer deslize, como se errar
fosse mortal. É cansativo, é estressante, é mórbido. Errar não é
mortal. Mortal é tentar fazer tudo certo o tempo todo. Isso sim nos
mata. Mata um pouquinho a cada dia. Mata a liberdade de se ser o que
se é. Mata a espontaneidade. Mata a alegria. Mata a beleza de
simplesmente ser. Ser errado de vez em quando também é saudável,
nos faz mais humanos, mais gente.
Quando o errado é certo.
terça-feira, 5 de abril de 2016
BOLO DE CHOCOLATE
Se tem algo que nos conforta nessa vida, essa coisa se chama bolo.
Bolo lembra carinho de avó, momento com as amigas, festa de
aniversário.
Os melhores momentos requerem bolo. Seja qual
comemoração for, ele se faz presente. E se for de chocolate então,
para quê mais?
Bolo de chocolate é o melhor aconchego que se pode
ter!
A vida se faz de altos e baixos, não se iluda, os momentos
tristes vão existir, por mais otimista que sejamos, por mais que
façamos tudo certinho, não tem jeito, é inevitável, iremos ficar
cara a cara com o sofrimento. Mas, se tiver bolo e se ele for de
chocolate, tudo pode ser menos dolorido. Tudo pode ter um outro
sabor.
E se você for o foda, que tira tudo de letra, o super maduro,
que lida muito bem com todas as adversidades da vida, ainda assim,
você irá precisar de um acalento na alma. Sim, você precisará,
nem que seja só um pedacinho, de um bolo de chocolate.
Mesmo quando
tudo vai bem, quando o amor bate a sua porta, e o mundo é tão
lindo, as pessoas são só amor e calor, a vida só te sorri, o que
não te faltará então é motivos para comer bolo de chocolate.
É
isso. Faça sol ou faça chuva, faça tristeza ou alegria, faça ódio
ou amor, faça frio ou calor, um bolo de chocolate, por favor.
quinta-feira, 31 de março de 2016
O DESCARTE
Por indicação de amigas, li o livro "A mágica da arrumação" de Marie Kondo. Ainda que você seja uma pessoa organizada - e tenha consciência disso - o que era o meu caso, o livro pode te surpreender com conselhos que você jamais parou para pensar em termos de organização. Dicas que você poderá aplicar em muitos aspectos da sua vida. Já pensou em deixar no seu guarda-roupa somente roupas que te trazem alegria? Não? Nem eu... e é bem por aí que o livro vai.
Numa síntese bem forçada, eu diria que o livro traz a seguinte mensagem: descarte tudo! Ok. Eu estou exagerando, também não é assim. Inspirada pela simplicidade e praticidade do exposto no livro e considerando que estou numas férias meio que forçadas, recuperando-me de um problema de saúde, comecei a reorganizar aquilo que achava estar muito bem organizado (ledo engano, sério!). Como não estou podendo fazer muitos esforços físicos, optei pelo mais viável naquele momento. Fui para minhas caixinhas de bijou. Lindas caixinhas de bijou, diga-se, de passagem. Todas foram presentes e as guardo com muito cuidado e carinho.
Então que fui separando aquilo que eu adorava daquilo que não gosto e que não uso. Não necessariamente a gente não gosta e não usa. Você pode gostar e não usar ou usar e não gostar. Adotei ambos os critérios: não gosto e não uso. Nessa acabaram-se indo alguns presentes dados pela minha irmã. E o que é pior: ela achava que eles eram a minha cara! Isso me fez quase que entrar num dilema paranóico filosófico transcendental. Minha cara? Tem certeza? Quem sou eu? O que é a minha cara? Quem eu pareço ser? Eu sou aquele brinco em um tom azul com vários gominhos despencados que me remetem a não sei o quê?
Como muita coisa estava indo para o espaço, antes do descarte final, sempre submeto à minha irmã, para ver se ela tem interesse em algo, embora quisesse que ela não ficasse com nada. Mas, ai de mim se eu passar algo para frente sem consultá-la. Sim, minha irmã é uma acumuladora. Não bastasse acumular as coisas dela, ela também quer acumular as minhas. Ainda bem que é na bagunça dela.
Agora, imaginem a cara dela ao ver algumas bijous que ela me presenteou na sacolinha do descarte. Ui! Sou muito corajosa. Taurinos são assim, não têm medo de morrer ou de serem expostos a um super drama aquariano. Não serei injusta. Ela apenas as reconheceu e me fitou com aquela cara do gatinho do Shrek e perguntou: Você não gostou? E abaixou a cabeça. Nossos olhos se cruzaram e eu segui o mesmo comando. Ficamos as duas com a cabeça baixa, num silêncio infinito, em que era possível escutar até as batidas do coração. Os anos se passaram. Nunca mais tocamos no assunto. Não permitimos que o fantasma daquelas bijous atrapalhassem anos de cumplicidade, amor e amizade. A vida se seguiu e fomos felizes para sempre. The end.
terça-feira, 29 de março de 2016
EM TEMPOS DE CRISE
Em tempos de crise, o medo se assola. Temos que economizar. Ainda que você seja um servidor público, com salário fixo e estabilidade. Sabe-se lá. A ordem é economizar. Imbuída desse espírito de crise, minha irmã foi às compras de páscoa com muita cautela e disposição para gastar o menos possível. Pois se há crise, vamos todos de mãos dados sofrer o que há para se sofrer, juntos! Desde já, esclareço que acho bonito essa entrega e compaixão dela pelo sentimento de tristeza que assola o país, até porque também somos servidores públicos há mais de dez anos sem aumento.
Teremos páscoa, só que comedida. Bem, fomos as duas ao supermarket. Ovos de páscoa? Somente para o sobrinho de 2 anos. Ela, apesar da vibe "estamos em crise", ainda comprou bombons para o marido dela e para mim. Sem ganhar nada, contudo, lamentou-se durante o domingo de páscoa com a máxima "não ganhei sequer um bombom", esquecendo-se de que estamos em crise e que temos que evitar gastos supérfluos. Esquecendo-se, inclusive, da sua intolerância à lactose (essa, de todas, foi a melhor justificativa que usamos pelo que jamais foi um esquecimento, ma sim uma economia - crise! - e preocupação com sua saúde). Mas, cá entre nós, mais gostoso e saboroso que o chocolate que ela deixou de ganhar, foi a oportunidade que ela teve de nos apontar o dedo para que nos sentíssemos culpados o suficientes e dizer com todas as letras: eu lembro de todo mundo, ninguém lembra de mim. Todos os aquarianos são assim?
A história não acaba por aí. Tínhamos que comprar peixe para a sexta-feira santa e o famoso bacalhau para o domingo de páscoa. Apesar de não sermos católicos, embora sejamos batizados e crismados, confesso que seguimos mais esse costume por uma questão de tradição do que por fé. Fé tenho em um Deus de amor, que me faz pensar não querer muitos sacrifícios da nossa parte. Mas, isso é assunto para um outro momento. Voltando ao peixe, enquanto pegava umas verduras aqui e acolá, minha irmã ficou com a missão de escolhê-lo. Mal sabia eu que se tratava de um peixe com umas 4 postas bem pequenininhas. Descoberta essa que só aconteceu na sexta. Meu cunhado e eu nem acreditamos no que víamos, enquanto minha irmã, ao argumento de que estamos em crise, ria da sua descabida economia sem fim. A que ponto chegamos?
E para lembrar que em tempos de crise, realmente temos que colocar o pé no freio, o almoço servido no domingo de páscoa foi um delicioso peixe tipo bacalhau, o qual nunca saberemos de que peixe se tratava, numa receita clássica: Bacalhau a Gomes de Sá. Com muitas azeitonas pretas, batatas e ovos, os convidados desse domingo jamais saberão que foram ludibriados por duas irmãs que só queriam economizar. Afinal, o sabor estava muito bom. Não sou nenhum pouco modesta. E ainda que tenham desconfiado não se tratar de um legítimo bacalhau, ora... estamos em crise... e páscoa é sempre tempo de perdão, não é não?
segunda-feira, 28 de março de 2016
DAS INFÂNCIAS SEM CACHORRO-QUENTE
Não se faz mais infâncias como antigamente. Aquelas infâncias em
que tudo terminava em pizza... ops, em pizza não... aquela que eu
lembro, que eu fiz parte, terminava em cachorro-quente. Podia ser pão
francês, com a salsicha mais vagabunda que tivesse e um molhinho bem
improvisado. Voilá! Isso era o suficiente e necessário para
degustar e sentir a mais pura felicidade.
Cachorro-quente me remete a
momentos alegres e descontraídos e até hoje ele é uma das iguarias
mais populares e queridas de minha preferência. Com muito molho, por
favor. Acompanhado de uma boa mostarda, a gente vai amadurecendo o
paladar.
Assustou-me dia desses saber que na creche do meu sobrinho
as festinhas da criança só tem maquete, não se pode levar nenhum
tipo de comida. Que tristeza assolou-se no meu coração. Nem
cachorro-quente, tia? Nem cachorro-quente. Bem assim.
Fiquei pensando
na infância que tive, em que tomávamos banho de chuva, andávamos
nas enxurradas, nada era muito proibido, nem mesmo falar com
estranhos. Coisa de interior, eu sei. Coisa de gente saudosa, eu sei.
Coisa de gente que não aceita que “o novo sempre vem”, eu sei.
Coisa de gente que acha que o que passou era melhor, eu sei. Eu sei,
eu sei, eu sei.
Nem me reconheço nessas palavras. Eu que sempre acho
que o melhor está por vir. Eu que sempre acho que o passado é tão
over, tão triste, tão “olha o que eles fizeram comigo”. Mas,
confesso, festinhas de criança sem cachorro-quente, que tristeza sem
fim. Proíbam tudo o que quiser, evitem glútem e lactose, cuidem da
alimentação das criancinhas. Mas, por favor, não matem o
cachorro-quente. Ele é a lembrança eterna de dias felizes, em que a
infância jamais terá fim.
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