quinta-feira, 31 de março de 2016

O DESCARTE

Por indicação de amigas, li o livro "A mágica da arrumação" de Marie Kondo. Ainda que você seja uma pessoa organizada - e tenha consciência disso - o que era o meu caso, o livro pode te surpreender com conselhos que você jamais parou para pensar em termos de organização. Dicas que você poderá aplicar em muitos aspectos da sua vida. Já pensou em deixar no seu guarda-roupa somente roupas que te trazem alegria? Não? Nem eu... e é bem por aí que o livro vai.

Numa síntese bem forçada, eu diria que o livro traz a seguinte mensagem: descarte tudo! Ok. Eu estou exagerando, também não é assim. Inspirada pela simplicidade e praticidade do exposto no livro e considerando que estou numas férias meio que forçadas, recuperando-me de um problema de saúde, comecei a reorganizar aquilo que achava estar muito bem organizado (ledo engano, sério!). Como não estou podendo fazer muitos esforços físicos, optei pelo mais viável naquele momento. Fui para minhas caixinhas de bijou. Lindas caixinhas de bijou, diga-se, de passagem. Todas foram presentes e as guardo com muito cuidado e carinho. 

Então que fui separando aquilo que eu adorava daquilo que não gosto e que não uso. Não necessariamente a gente não gosta e não usa. Você pode gostar e não usar ou usar e não gostar. Adotei ambos os critérios: não gosto e não uso. Nessa acabaram-se indo alguns presentes dados pela minha irmã. E o que é pior: ela achava que eles eram a minha cara! Isso me fez quase que entrar num dilema paranóico filosófico transcendental. Minha cara? Tem certeza? Quem sou eu? O que é a minha cara? Quem eu pareço ser? Eu sou aquele brinco em um tom azul com vários gominhos despencados que me remetem a não sei o quê?

Como muita coisa estava indo para o espaço, antes do descarte final, sempre submeto à minha irmã, para ver se ela tem interesse em algo, embora quisesse que ela não ficasse com nada. Mas, ai de mim se eu passar algo para frente sem consultá-la. Sim, minha irmã é uma acumuladora. Não bastasse acumular as coisas dela, ela também quer acumular as minhas. Ainda bem que é na bagunça dela. 

Agora, imaginem a cara dela ao ver algumas bijous que ela me presenteou na sacolinha do descarte. Ui! Sou muito corajosa. Taurinos são assim, não têm medo de morrer ou de serem expostos a um super drama aquariano. Não serei injusta. Ela apenas as reconheceu e me fitou com aquela cara do gatinho do Shrek e perguntou: Você não gostou? E abaixou a cabeça. Nossos olhos se cruzaram e eu segui o mesmo comando. Ficamos as duas com a cabeça baixa, num silêncio infinito, em que era possível escutar até as batidas do coração. Os anos se passaram. Nunca mais tocamos no assunto. Não permitimos que o fantasma daquelas bijous atrapalhassem anos de cumplicidade, amor e amizade. A vida se seguiu e fomos felizes para sempre. The end.

terça-feira, 29 de março de 2016

EM TEMPOS DE CRISE

Em tempos de crise, o medo se assola. Temos que economizar. Ainda que você seja um servidor público, com salário fixo e estabilidade. Sabe-se lá. A ordem é economizar. Imbuída desse espírito de crise, minha irmã foi às compras de páscoa com muita cautela e disposição para gastar o menos possível. Pois se há crise, vamos todos de mãos dados sofrer o que há para se sofrer, juntos! Desde já, esclareço que acho bonito essa entrega e compaixão dela pelo sentimento de tristeza que assola o país, até porque também somos servidores públicos há mais de dez anos sem aumento. 

Teremos páscoa, só que comedida. Bem, fomos as duas ao supermarket. Ovos de páscoa? Somente para o sobrinho de 2 anos. Ela, apesar da vibe "estamos em crise", ainda comprou bombons para o marido dela e para mim. Sem ganhar nada, contudo, lamentou-se durante o domingo de páscoa com a máxima "não ganhei sequer um bombom", esquecendo-se de que estamos em crise e que temos que evitar gastos supérfluos. Esquecendo-se, inclusive, da sua intolerância à lactose (essa, de todas, foi a melhor justificativa que usamos pelo que jamais foi um esquecimento, ma sim uma economia - crise! - e preocupação com sua saúde). Mas, cá entre nós, mais gostoso e saboroso que o chocolate que ela deixou de ganhar, foi a oportunidade que ela teve de nos apontar o dedo para que nos sentíssemos culpados o suficientes e dizer com todas as letras: eu lembro de todo mundo, ninguém lembra de mim. Todos os aquarianos são assim?

A história não acaba por aí. Tínhamos que comprar peixe para a sexta-feira santa e o famoso bacalhau para o domingo de páscoa. Apesar de não sermos católicos, embora sejamos batizados e crismados, confesso que seguimos mais esse costume por uma questão de tradição do que por fé. Fé tenho em um Deus de amor, que me faz pensar não querer muitos sacrifícios da nossa parte. Mas, isso é assunto para um outro momento. Voltando ao peixe, enquanto pegava umas verduras aqui e acolá, minha irmã ficou com a missão de escolhê-lo. Mal sabia eu que se tratava de um peixe com umas 4 postas bem pequenininhas. Descoberta essa que só aconteceu na sexta. Meu cunhado e eu nem acreditamos no que víamos, enquanto minha irmã, ao argumento de que estamos em crise, ria da sua descabida economia sem fim. A que ponto chegamos?

E para lembrar que em tempos de crise, realmente temos que colocar o pé no freio, o almoço servido no domingo de páscoa foi um delicioso peixe tipo bacalhau, o qual nunca saberemos de que peixe se tratava, numa receita clássica: Bacalhau a Gomes de Sá. Com muitas azeitonas pretas, batatas e ovos, os convidados desse domingo jamais saberão que foram ludibriados por duas irmãs que só queriam economizar. Afinal, o sabor estava muito bom. Não sou nenhum pouco modesta. E ainda que tenham desconfiado não se tratar de um legítimo bacalhau, ora... estamos em crise... e páscoa é sempre tempo de perdão, não é não?




segunda-feira, 28 de março de 2016

DAS INFÂNCIAS SEM CACHORRO-QUENTE

Não se faz mais infâncias como antigamente. Aquelas infâncias em que tudo terminava em pizza... ops, em pizza não... aquela que eu lembro, que eu fiz parte, terminava em cachorro-quente. Podia ser pão francês, com a salsicha mais vagabunda que tivesse e um molhinho bem improvisado. Voilá! Isso era o suficiente e necessário para degustar e sentir a mais pura felicidade. 

Cachorro-quente me remete a momentos alegres e descontraídos e até hoje ele é uma das iguarias mais populares e queridas de minha preferência. Com muito molho, por favor. Acompanhado de uma boa mostarda, a gente vai amadurecendo o paladar. 

Assustou-me dia desses saber que na creche do meu sobrinho as festinhas da criança só tem maquete, não se pode levar nenhum tipo de comida. Que tristeza assolou-se no meu coração. Nem cachorro-quente, tia? Nem cachorro-quente. Bem assim. 

Fiquei pensando na infância que tive, em que tomávamos banho de chuva, andávamos nas enxurradas, nada era muito proibido, nem mesmo falar com estranhos. Coisa de interior, eu sei. Coisa de gente saudosa, eu sei. Coisa de gente que não aceita que “o novo sempre vem”, eu sei. Coisa de gente que acha que o que passou era melhor, eu sei. Eu sei, eu sei, eu sei. 

Nem me reconheço nessas palavras. Eu que sempre acho que o melhor está por vir. Eu que sempre acho que o passado é tão over, tão triste, tão “olha o que eles fizeram comigo”. Mas, confesso, festinhas de criança sem cachorro-quente, que tristeza sem fim. Proíbam tudo o que quiser, evitem glútem e lactose, cuidem da alimentação das criancinhas. Mas, por favor, não matem o cachorro-quente. Ele é a lembrança eterna de dias felizes, em que a infância jamais terá fim.