Tipo da polêmica que não dá para passar em branco. Porquê? Eu explico.
Cresci em uma família de mulheres fortes e guerreiras, que batalharam muito, que foram para vida estudar, trabalhar, crescer, terem sua independência. Quiseram traçar seu próprio destino, ter voz. Ou, por vezes, foram à luta por necessidade mesmo, para sustentar a família. Mas foram.
Daí que nessa semana me deparo com os ótimos e divertidos memes em função da reportagem sobre a "quase" primeira-dama feita pela Revista Veja, que a denominou como "Bela, Recatada e do Lar", ressaltando tais atributos em pleno 2016 como características dignas de uma mulher. Isso numa época em que nunca se falou tanto sobre os direitos das mulheres e igualdade de gêneros.
Embora eu ache que a independência seja uma das melhores coisas na vida de qualquer pessoa, não vejo problema algum em ser "do lar", desde que seja por opção e não por imposição. Assim como não vejo demérito nenhum em não ser casada e não ter filhos, ao contrário, hoje muitas melhores destoam desse caminho que foi traçado há muito pela humanidade como o caminho da felicidade e optam por viverem sozinhas, sem filhos, dedicar-se à carreira e a um mundo de infinitas possibilidades que não se resume a constituir uma família. Todos os caminhos são válidos e deveriam, no meu ver, se ater aos nossos desejos e vontades e não ao que a sociedade nos impõe. Sociedade essa que durante décadas valorizou e determinou que fôssemos "recatadas e do lar", daí o meu espanto com tal reportagem.
Minha vó, uma das pessoas de maior caráter que já conheci, que Deus a tenha, sempre nos incentivou a estudar, dizendo que o melhor marido que poderíamos ter era um bom emprego. Minha família nunca valorizou casamento, isso nunca foi pauta de conversas nos encontros familiares. Não que isso seja certo. Nem errado. Só quer dizer que minhas primas, minha irmã e eu fomos criadas sob outra ótica, onde o valor estava no que iríamos conquistar em termos de estudo e trabalho. Novos tempos. Minha vó sempre dizia que ela não queria ter casado, que o sonho dela era ter ido para o Rio de Janeiro estudar. Desejo tolhido em razão de uma sociedade machista onde o papel - único - da mulher era casar, ter filhos, constituir família.
Ainda vivemos tempos em que uma mulher expansiva, que faz muito barulho, que tem muita opinião é vista como "barraqueira" ou "machona". Não falo de grosseria ou falta de educação, mas de personalidade, da natureza de cada um. Nem todas nascemos para ser boazinhas, mansas, gentis, falar em um tom baixinho, suave, como se estivesse sussurrando. Não quero uma sociedade em que o valor de uma mulher esteja em ser recatada. Quero sim fazer parte de um mundo onde a mulher pode optar por não se expor, não fazer alarde e também optar por ser espalhafatosa, extravagante, indiscreta, sem ser julgada ou apontada ou discriminada por assim ser.
Belas sempre seremos. Recatadas e do lar nem tanto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário