A palavra amor não deveria ser pronunciada em vão. Chamar alguém de meu amor muito menos. Só poderia usá-la quando o sentir ultrapassasse qualquer entendimento, quando os olhos brilhassem, numa sensação de que o coração fosse quase parar. Porque aí então seria o amor. O meu amor.
Em atos promíscuos, pura luxúria, de satisfação carnal, fala-se meu amor quando não o é. Quanta leviandade nesses nossos tempos. Onde foi parar a devoção ao amor visto em Casablanca ou lido em Gabriel Garcia Marquez?
Meu coração se ressente nesses tempos líquidos, como diz Bauman: nada é para durar. Oh céus! O que a humanidade tem feito daquilo que nos diferencia dos outros animais? Longe de mim tentar qualquer ensaio filosófico, pois correria sérios riscos de pagar o maior mico. Sou apenas uma mulher de seus trinta e poucos tentando compreender o que se passa nos relacionamentos amorosos (se é que assim podemos denominar), lendo Osho e tudo que seja capaz de me fazer transcender. Somos melhores que ontem? Tem certeza? Ou temos sido os mesmos, desde sempre?
Temos estado tão perdidos que não sabemos o que estamos construindo ou fazendo ou querendo, como zumbis numa dinâmica de "é o que temos para hoje". E se a realidade machuca, também não vemos espaço para fazer diferente. Estou sendo tão pessimista, logo eu que tenho fama de ser Pollyanna e brincar o jogo do contente quando não, eu não deveria brincar, porque há muita coisa nesse mundo que - definitivamente - não tem o seu lado bom. Pessimista demais ou realista no ponto certo?
Mas eu ainda acredito em encontros amorosos verdadeiros. Encontros esses em que chamar alguém de meu amor tem significado e essência. Beleza e devoção. E olho agora para o relógio e ele me aponta exatamente 00:00. Isso me faz pensar: seremos tão covardes a ponto de ficar no zero a zero? Eu sei do que lindas histórias de amor podem fazer por alguém. Ainda bem que eu sei. Não, eu não quero ficar no zero a zero nem falar amor em vão.
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