terça-feira, 24 de maio de 2016

QUE DÓ!

Dia desses me peguei tendo um daqueles sentimentos tão baixos, tão dignos de dó, que era a própria dó.

Sentada em um dos restaurantes do Pontão, apreciando aquele ar de praia, com uma vista abençoada por Deus e bonita por natureza, rolava uma música ao vivo. Uma MPB gostosa que acalentava o coração, quando não nos fazia sofrer ao lembrar dos ex-amores. De todo modo, bonito estava e muito agradável também. 

Empolgada com a música e com todas as sensações que ela estava me proporcionando, observei que ao final de cada música eu batia umas palminhas de leve, timidamente, meio sem gracinha. Enquanto nas outras mesas, as pessoas continuavam suas conversas como se aquela boa música não estivesse impregnando o ambiente com tanta magia e leveza. Daí que bateu no meu peito uma dó. Dó daqueles músicos que não foram aplaudidos. Dó porque no final da apresentação eles recolheram seus pertences e  foram embora sem um muito obrigada, sem nada, como se jamais tivessem feito qualquer apresentação ali, naquele recinto.

Pensando bem, triste de mim. É bem provável que tais músicos - eles e outros - não estejam nem aí para quem está sentado do lado de lá. Pode ser que eles curtam tanto aquele momento que vivem, uma parada deles com o instrumento que tocam, inclusive sem se importar se agradam ou não. A música é uma das poucas coisas da vida que pode deixar alguém meio fora de si, sem se preocupar muito com o que se passa ao seu redor. Tenho essa leve impressão, embora não toque nada. Mas, só o fato de apreciar me faz ter algumas vezes essa sensação, de conseguir sair do meu mundo e ir para outra dimensão, sem uso de qualquer tipo de droga. Das coisas mais gostosas e intensas de se viver. Uma música ao tocar uma alma, liberta-a de todo e qualquer sofrimento, mesmo que momentâneos.

Boba de mim que fiquei meio constrangida, meio sem graça, com dó... e quantos equívocos a gente vai cometendo nesse sentir... sem saber exatamente o que se passa dentro de cada um...   

sábado, 14 de maio de 2016

DOS ENCONTROS

Essa semana fui a um bar acompanhado de um amigo daqueles que é uma dádiva da vida, caprichado e embrulhado para presente por Deus. E com ele você não precisa de muita coisa para ser feliz e dar boas gargalhadas. Mesmo estando apenas nós dois, nossa noite foi pra lá de divertida, curtindo um bom jazz, rindo, afinal, ser feliz é uma opção e depende única e exclusivamente da nossa boa vontade.

Daí que ao ir ao banheiro. Ponto. Terei que parar a frase no meio para explicar que uma ida ao banheiro nesse bar não é uma ida qualquer ao banheiro. Uma ida ao banheiro tem um gostinho a mais para aqueles que se jogam na noite para paquerar, ver gente bonita e feliz e quem sabe ainda tropeçar com um possível amor, já que nesse banheiro, homens e mulheres se esbarram num vai e vem frenético, dividem o mesmo lavabo e não venham me dizer que não há nada demais nisso não, porque é mentira. Aquele curto corredor, mais apertadinho, torna os olhares mais atentos, os sorrisos mais fáceis, a proximidade mais evidente. Viva os banheiros unissex!

Daí que ao ir ao banheiro, presenciei uma daquelas cenas tão corriqueiras na noite, em que o homem se aproxima da mulher, puxa conversa, pergunta o que ela faz, ele a faz rir, ela joga o cabelo, faz um charme, coisa e tal, e todo mundo sabe muito bem como se dá esse mise en scéne. Coisa mais deliciosa de se viver, vamos combinar! Então que eu lá no box fiquei prestando atenção nessa cena, dois jovens, cheios de vida, bonitos, tanto ele como ela. E quando fui lavar minha mão, fiquei observando o interesse de ambos um pelo outro, o olhar mais aceso, o sorriso tão gostoso, o corpo exalando desejo, como se fosse um daqueles encontros marcantes. Nisso, ele perguntou o que ela estava bebendo e no que ela respondeu, ele sugeriu: vamos brindar? Ela sem titubear, respondeu: claro, vamos brindar! Realmente. Há tantos motivos para brindar. Brindar à vida, à noite, ao amor, aos encontros, aos banheiros unissex e toda as possibilidades que nos são ofertadas diariamente. 

Quando voltei para minha mesa, fiquei observando o movimento desse tão recente casal, ainda que tenha sido só por aquela meia hora, eles formaram um belo e simpático casal. Ele a apresentou para os amigos dele. Ela o levou até a mesa onde ela estava com vários amigos, o apresentou e eles ficaram ali conversando, sem parar de se olharem, compenetrados, hipnotizados um pelo outro.

Fiquei curiosa em saber o que vai dar desse encontro. Terá sido só aquele encontro ali, sem um mais depois? Será que já se encontraram novamente e se falam várias vezes por dia? Será que irão engatar um namoro e até quem sabe dividir o teto algum dia? Farão planos juntos, dividirão sonhos e irão ao cinema todo domingo? Ou terá sido apenas um deleite de uma noite animada em que os sentidos ficam mais aguçados por conta do álcool? Será que se encontrarão algumas vezes e perceberão que não há a menor afinidade? Ou quando estiverem saindo juntos um deles sentirá que ainda ama o ex? O que será daquele encontro inusitado ou, por assim dizer, nem tanto inusitado? 

De uma topada no banheiro, tantas coisas podem acontecer, inclusive o nada. Tudo pode ser. Tudo pode não ser. São inúmeras as possibilidades. E muitos os encontros. Não temos acesso aos 7 bilhões de pessoas, mas é capaz que tenhamos a alguns milhões, eu acho. E olha o quanto de vida, estórias, momentos e experiências podem se encontrar e se compartilhar. A vida é mesmo surpreendente. 

quinta-feira, 5 de maio de 2016

FRIDA KAHLO

A exposição com obras de Frida Kahlo e outras artistas mexicanas aterrisaram na Caixa Cultural em Brasília e lá fui dar aquela conferida básica, claro! Considerada integrante do movimento surrealista, Frida, na verdade, não queria pintar o inconsciente, mas a tragédia e o sofrimento, tão peculiares ao longo de sua vida. Prova disso é a sua célebre frase: "Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade".

Frida é conhecida por seus autorretratos, dizia ela que se auto pintava pois se considerava sozinha e, por fim, com quem mais tinha contato era consigo própria. Observando as obras de Frida em que ela se auto retrata, percebi um olhar de profunda tristeza. Com efeito, ela nunca negou seu sofrimento diante de tantas adversidades pelas quais passou, dentre elas uma poliemielite na infância, um acidente de carro na adolescência e três abortos.

Frida era muito autêntica. Numa época em que a moda era se comportar como as européias, ela se identificava com as suas origens indígenas e se vestia como as mexicanas de outrora, em um estilo que tendia para o artesanato, com muitas cores e personalidade.

Fico a pensar o quanto deve ser gratificante e ao mesmo tempo dolorido ser diferente, ir contra os "padrões" pré-estabelecidos. E isso não só pelo fato de se vestir. Numa época em que temas como bissexualidade era tabu, Frida manteve relações amorosas com mulheres, embora fosse casada com  Diego Rivera, um grande pintor mexicano com quem manteve uma relação muito conturbada regada a traições de ambos. É difícil saber que as pessoas te apontam porque você transcende o modelo imposto. É preciso muita autenticidade e coragem para ser você mesmo, quando isso implica em ir contra a maré.

Como precursora de uma agitação artística de mulheres mexicanas, Frida saiu na frente e exatamente por isso é tão conhecida. Eu amei a exposição, até porque, definitivamente, eu amo o surrealismo, embora Frida não estivesse exatamente engajada com esse movimento. A questão é que eu realmente tenho uma queda pelo abstrato, pelo irreal, numa perspectiva de transcender o que é real e palpável. A vida precisa de sonhos. Ainda que sejam loucos e transgressores.