É
simplesmente maravilhosa a sensação que se tem ao sair do cinema
depois de assistir um grande filme. Ainda mais quando esse filme é
poético, sensível e nos conta uma história de amor baseada em
fatos reais.
O
filme conta o romance entre Elizabeth Bishop, norte-americana,
considerada uma das maiores poetas da língua inglesa, e de Lota de
Macedo Soares, arquiteta brasileira e uma das idealizadoras do Parque
do Flamengo (considerada grande arquiteta e paisagista apesar de
nunca ter cursado universidade).
Elizabeth
era uma mulher frágil, tímida, introspectiva e não muito bem
resolvida com o seu trabalho. Angustiada com a vida que estava
levando, resolve, então, fazer uma viagem pelo mundo e a sua
primeira parada foi no Rio de Janeiro, onde iria passar apenas alguns
dias. Ficou hospedada na casa de Lota, amante de uma grande amiga de
Elizabeth. Então que as duas - Elizabeth e Lota - se apaixonam e o
que era pra ser apenas alguns dias tornaram-se 17 anos. Lota, por sua
vez, é uma mulher forte, autoritária, que não se submetia às
convenções sociais.
O
filme narra a história de amor dessas duas grandes mulheres
paralelamente ao trabalho que as duas realizaram. Grande parte das
poesias de Elizabeth foram feitas em Petrópolis, onde morava com
Lota. O filme conta ainda as adversidades vividas pela poeta quando
criança e a repercussão que isso teve em seu trabalho.
Dirigido
por Bruno Barreto, o filme narra ainda o período político vivido
pelo Brasil na década de 60, o golpe militar e as impressões de uma
norte-americana sobre o comportamento passivo dos brasileiros, o que
é muito interessante.
Com
Glória Pires e Miranda Otto, o filme é belíssimo e o que achei
mais interessante é que não há nenhum engajamento com a
homossexualidade. O filme conta a história de amor entre duas
mulheres de forma muito natural, tranquila, sem querer levantar
qualquer bandeira. Ponto forte do filme é a interpretação incrível
dessas duas atrizes e não duvido nada que role indicação pro Oscar
como melhor atriz. Merece!!!
Segue um lindo poema de Elizabeth, que faz parte do contexto do filme:
A arte de perder
“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “
Filme excelente!!! Uma grande produção nacional.




