quinta-feira, 28 de abril de 2016

PERIGO, HÁ VIDA!

É tanto perigo o tempo todo. É dengue, é H1N1, é bactéria. É sair de casa e sofrer um acidente. É uma infecção urinária ou de garganta. É o cachorro do vizinho que te morde. É o tropeção que você dá e bate a cabeça. 

A gente até sobrevive, mas às vezes aos trancos e barrancos. O perigo se reveste de tantas maneiras e formas. Cada cilada.  É a palavra que te fere. É a mágoa que ressente. É o sonho que foi esquecido. É o olhar que reprova. É o amor que não foi correspondido. 

E as relações que amenizam as dores, muitas vezes nos castigam. É a perda do filho. É o amigo que não nos liga mais. É o calor da paixão que se esvai. 

É vida demais para corações tão pequenos como os nossos. É muito perigo para pouca fé. É muito sofrimento para tanta falta de sabedoria. Somos tão imperfeitos. E ainda insistimos tanto na vida, embora há quem desista. Seguimos corajosos por ingenuidade.

Pagamos um preço muito alto para ver o sol brilhar e a onda do mar bater sobre as pedras, para se ter noites de lua estreladas em que beijos ardentes nos consome, para se ter abraços que nos confortam em que é possível tornar-se um só, para compartilhar olhares apaixonados - quanto sentimento existe dentro de nós!

A vida cobra muito caro para se ver o sorriso sincero de uma criança, para se ter nos braços um filho, para amar e ser amado por um cachorro (das coisas mais belas e doces da vida). E por falar em doce, é muito perigo que vivemos para poder se lambuzar de sorvete, para se emocionar com um bom filme e apreciar uma poesia.

Que os sorrisos, amores, paixões, alegrias, artes, desejos e devaneios sejam muitos para que os perigos se tornem irrisórios e pequenos diante da imensidão de luz e afeto que compõem essa perigosa, louca e amada vida.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

BELA E RECATADA?

Tipo da polêmica que não dá para passar em branco. Porquê? Eu explico.

Cresci em uma família de mulheres fortes e guerreiras, que batalharam muito, que foram para vida estudar, trabalhar, crescer, terem sua independência. Quiseram traçar seu próprio destino, ter voz. Ou, por vezes, foram à luta por necessidade mesmo, para sustentar a família. Mas foram.

Daí que nessa semana me deparo com os ótimos e divertidos memes em função da reportagem sobre a "quase" primeira-dama feita pela Revista Veja, que a denominou como "Bela, Recatada e do Lar", ressaltando tais atributos em pleno 2016 como características dignas de uma mulher. Isso numa época em que nunca se falou tanto sobre os direitos das mulheres e igualdade de gêneros.

Embora eu ache que a independência seja uma das melhores coisas na vida de qualquer pessoa, não vejo problema algum em ser "do lar", desde que seja por opção e não por imposição. Assim como não vejo demérito nenhum em não ser casada e não ter filhos, ao contrário, hoje muitas melhores destoam desse caminho que foi traçado há muito pela humanidade como o caminho da felicidade e optam por viverem sozinhas, sem filhos, dedicar-se à carreira e a um mundo de infinitas possibilidades que não se resume a constituir uma família. Todos os caminhos são válidos e deveriam, no meu ver, se ater aos nossos desejos e vontades e não ao que a sociedade nos impõe. Sociedade essa que durante décadas valorizou e determinou que fôssemos "recatadas e do lar", daí o meu espanto com tal reportagem.

Minha vó, uma das pessoas de maior caráter que já conheci, que Deus a tenha, sempre nos incentivou a estudar, dizendo que o melhor marido que poderíamos ter era um bom emprego. Minha família nunca valorizou casamento, isso nunca foi pauta de conversas nos encontros familiares. Não que isso seja certo. Nem errado. Só quer dizer que minhas primas, minha irmã e eu fomos criadas sob outra ótica, onde o valor estava no que iríamos conquistar em termos de estudo e trabalho. Novos tempos. Minha vó sempre dizia que ela não queria ter casado, que o sonho dela era ter ido para o Rio de Janeiro estudar. Desejo tolhido em razão de uma sociedade machista onde o papel - único - da mulher era casar, ter filhos, constituir família.

Ainda vivemos tempos em que uma mulher expansiva, que faz muito barulho, que tem muita opinião é vista como "barraqueira" ou "machona". Não falo de grosseria ou falta de educação, mas de personalidade, da natureza de cada um. Nem todas nascemos para ser boazinhas, mansas, gentis, falar em um tom baixinho, suave, como se estivesse sussurrando. Não quero uma sociedade em que o valor de uma mulher esteja em ser recatada. Quero sim fazer parte de um mundo onde a mulher pode optar por não se expor, não fazer alarde e também optar por ser espalhafatosa, extravagante, indiscreta, sem ser julgada ou apontada ou discriminada por assim ser.

Belas sempre seremos. Recatadas e do lar nem tanto.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A GENTE MUDA

Uma vez, em um desses meus encontros amorosos, saí com um cara uns doze anos mais velho que eu. Por sinal, uma dessas pessoas que você tem a felicidade de conhecer e o privilégio de ter horas de uma boa conversa, acompanhadas de um bom vinho. Uma pessoa rara pela sua história de superação, por tudo que conquistou e por quem é. Um exemplo a ser seguido e que certamente até hoje me inspira. Se um dia ele ler esse texto, ele saberá que é ele. Você que me denominou "menina mulher". Eu também tenho minhas vaidades e que fiquem registradas. 

Nesse encontro, lembro-me como se fosse hoje, utilizando-se dessa expressão bem clichê, dele ter dito que os meus interesses aos 40 não seriam os mesmos de agora, aos 30. Achei tão estranho, não fez muito sentido para mim. Pensei para mim mesma sem querer contestá-lo: como não? Posso até mudar, mas como vou deixar de gostar, de me interessar por esse universo que faz tanto sentido para mim? Pensei assim... como se determinados interesses fossem eternos...

Não foi necessário chegar aos 40 para dar razão a ele. Passados poucos anos, é impressionante perceber e sentir que a gente muda. Do dia para a noite. Num piscar de olhos. Você nem se reconhece mais. Eu era aquela pessoa que pensava assim? Engraçado quando nos colocamos no papel de observador e analisamos o nosso próprio pensamento de tempos atrás. 

Vejo por esse blog. O mundo gastronômico para mim era um interesse e tanto. Não que ainda não seja. Amo comer bem, conhecer novos sabores, ir para a cozinha brincar de Chef (metida à besta). Tinha um verdadeiro fetiche em desbravar restaurantes, ter isso como um programa semanal na minha vida. Passou. Até desejava ser crítica gastronômica assim como Julia Roberts no filme O Casamento do Meu Melhor Amigo. Hoje me parece enfadonho.

Não terei o descaramento de dizer que a gente muda para melhor ou que eu me mudei para melhor porque seria muita pretensão da minha parte. Eu que ando querendo abrir mão das minhas pretensões, inclusive, a de ser vaidosa.

E ainda sobre minhas vaidades (as vaidades morais, essas são as piores), até me orgulho de ver que mudo, que não insisto em ser a mesma pessoa, pensando as mesmas coisas, desejando igual e procurando pelo mesmo. Hoje nem vejo muito sentido em ficar procurando. Antes que você me pergunte, eu lhe digo: procurando e buscando pelo nem sei o quê ao certo. Até acho que eu sei, mas eu prefiro dizer que não sei. Eu que antes fazia questão de ter uma resposta para tudo.

É, a gente muda.

terça-feira, 12 de abril de 2016

FALAR AMOR EM VÃO

A palavra amor não deveria ser pronunciada em vão. Chamar alguém de meu amor muito menos. Só poderia usá-la quando o sentir ultrapassasse qualquer entendimento, quando os olhos brilhassem, numa sensação de que o coração fosse quase parar. Porque aí então seria o amor. O meu amor.

Em atos promíscuos, pura luxúria, de satisfação carnal, fala-se meu amor quando não o é. Quanta leviandade nesses nossos tempos. Onde foi parar a devoção ao amor visto em Casablanca ou lido em Gabriel Garcia Marquez? 

Meu coração se ressente nesses tempos líquidos, como diz Bauman: nada é para durar. Oh céus! O que a humanidade tem feito daquilo que nos diferencia dos outros animais? Longe de mim tentar qualquer ensaio filosófico, pois correria sérios riscos de pagar o maior mico. Sou apenas uma mulher de seus trinta e poucos tentando compreender o que se passa nos relacionamentos amorosos (se é que assim podemos denominar), lendo Osho e tudo que seja capaz de me fazer transcender. Somos melhores que ontem? Tem certeza? Ou temos sido os mesmos, desde sempre?

Temos estado tão perdidos que não sabemos o que estamos construindo ou fazendo ou querendo, como zumbis numa dinâmica de "é o que temos para hoje". E se a realidade machuca, também não vemos espaço para fazer diferente. Estou sendo tão pessimista, logo eu que tenho fama de ser  Pollyanna e brincar o jogo do contente quando não, eu não deveria brincar, porque há muita coisa nesse mundo que - definitivamente - não tem o seu lado bom. Pessimista demais ou realista no ponto certo?

Mas eu ainda acredito em encontros amorosos verdadeiros. Encontros esses em que chamar alguém de meu amor tem significado e essência. Beleza e devoção. E olho agora para o relógio e ele me aponta exatamente 00:00. Isso me faz pensar: seremos tão covardes a ponto de ficar no zero a zero? Eu sei do que lindas histórias de amor podem fazer por alguém. Ainda bem que eu sei. Não, eu não quero ficar no zero a zero nem falar amor em vão.


segunda-feira, 11 de abril de 2016

OLHOS VERDES

Ele simplesmente se foi. Nem se despediu. Silenciosamente.

Por muito tempo escutei dizer que gatos pretos davam azar. Até o dia que conheci e aprendi a amar o meu gatão dos olhos verdes. Quando nos mudamos para nossa casa, ele já fazia parte do pacote. Até nome já tinha. O ex-dono foi-se embora e o deixou sem nenhuma cerimônia. Sim, eu também fiquei perplexa. Como deixar para trás seres indefesos e dependentes que só lhe dão amor? Ainda bem, pois gratas surpresas de afeto nos foram dadas. Ele no cantinho dele, com seus olhos verdes que gritavam de tanta beleza, foi nos conquistando pouco a pouco. Mesmo com a chegada dos três meninos, nossos atentados e muito amados vira-latas, não houve tempo ruim. Adaptaram-se todos muito bem. Muito bem assim... uma rusguinha aqui, outra acolá. Vamos abrir o jogo. Tivemos que brigar e muito com o Bidu para deixar nosso gatão em paz. 

Hoje penso que o que dá azar é reclamar da vida e desejar o mal para os outros. Meu gatão só nos trouxe alegrias e um pouquinho de trabalho, quando em suas aventuras noturnas, voltava todo estropiado e corríamos desesperados até o veterinário mais próximo. Gatinho danado! Aposto que era um belo de um conquistador com aqueles lindos olhos verdes de matar qualquer um de inveja. 

Gatos não são como cachorros e não se iluda achando que eles possam lhe devotar o mesmo afeto. Não mesmo. Gatos não são carentes, não te paparicam e, sim, não te dão muita bola. Mas, haverá dias que ele chegará, como quem não quer nada, e irá te adular ou começara a te seguir pelo jardim - durantes aqueles momentos que você para a vida para a apreciar o céu, a lua, o verde - e virá em sua direção e ficará ali do teu lado. Tudo muito espontâneo. Gatos e cachorros não são iguais. E é bom que seja assim. Não há melhor nem pior. São apenas diferentes. Cada um com suas idiossincrasias. E mesmo tendo naturezas diversas, eventualmente presenciávamos trocas de afeto do nosso gatão com um dos meninos. Meg e ele se amavam. Tenho impressão que ela deve chorar, longe da gente, a ausência que ele lhe faz. Respeito e harmonia podem e devem sempre prevalecer, principalmente quando não falamos a mesma língua.

O espírito dele era livre, solto ele ficava, solto ele se foi. Sinto paz ao lembrar dele. Foram sete anos de convívio e amizade. Seus olhos verdes ficarão para sempre em minha memória.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

QUANDO O CERTO É ERRADO

Quando ser certinha já não basta. Quando querer fazer tudo certo tem um peso. Quando pensar em que tudo tem que ser muito correto é um saco. Quando tentar ser perfeita dá nos nervos. Quando atender as expectativas alheias custa muito caro. Quando o certo é errado. 

Porque ser certo o tempo todo cansa. Cansa muito. E enche o saco pra caramba. E você se torna uma pessoa chata pra cacete. Porque não basta você ser certo, você quer que todo mundo também o seja. Haja saco. Haja paciência. Haja estômago. Haja certeza. Haja arrogância também. Porque tem algo mais arrogante do que se achar o dono da verdade?

Vamos deixar o erro apontar ou, simplesmente, parar de apontá-lo. Aceitar o outro do jeito que se é. Deixar cada um ser como bem entender. Ser livre. Livre-se. Livre-se das certezas, do certo. O certo existe? 

Muito peso passar uma vida tentando fazer tudo certinho o tempo todo, atento para qualquer deslize, como se errar fosse mortal. É cansativo, é estressante, é mórbido. Errar não é mortal. Mortal é tentar fazer tudo certo o tempo todo. Isso sim nos mata. Mata um pouquinho a cada dia. Mata a liberdade de se ser o que se é. Mata a espontaneidade. Mata a alegria. Mata a beleza de simplesmente ser. Ser errado de vez em quando também é saudável, nos faz mais humanos, mais gente. 

Quando o errado é certo.  

terça-feira, 5 de abril de 2016

BOLO DE CHOCOLATE

Se tem algo que nos conforta nessa vida, essa coisa se chama bolo. 

Bolo lembra carinho de avó, momento com as amigas, festa de aniversário. 

Os melhores momentos requerem bolo. Seja qual comemoração for, ele se faz presente. E se for de chocolate então, para quê mais? 

Bolo de chocolate é o melhor aconchego que se pode ter!

A vida se faz de altos e baixos, não se iluda, os momentos tristes vão existir, por mais otimista que sejamos, por mais que façamos tudo certinho, não tem jeito, é inevitável, iremos ficar cara a cara com o sofrimento. Mas, se tiver bolo e se ele for de chocolate, tudo pode ser menos dolorido. Tudo pode ter um outro sabor. 

E se você for o foda, que tira tudo de letra, o super maduro, que lida muito bem com todas as adversidades da vida, ainda assim, você irá precisar de um acalento na alma. Sim, você precisará, nem que seja só um pedacinho, de um bolo de chocolate. 

Mesmo quando tudo vai bem, quando o amor bate a sua porta, e o mundo é tão lindo, as pessoas são só amor e calor, a vida só te sorri, o que não te faltará então é motivos para comer bolo de chocolate. 

É isso. Faça sol ou faça chuva, faça tristeza ou alegria, faça ódio ou amor, faça frio ou calor, um bolo de chocolate, por favor.