terça-feira, 29 de março de 2016

EM TEMPOS DE CRISE

Em tempos de crise, o medo se assola. Temos que economizar. Ainda que você seja um servidor público, com salário fixo e estabilidade. Sabe-se lá. A ordem é economizar. Imbuída desse espírito de crise, minha irmã foi às compras de páscoa com muita cautela e disposição para gastar o menos possível. Pois se há crise, vamos todos de mãos dados sofrer o que há para se sofrer, juntos! Desde já, esclareço que acho bonito essa entrega e compaixão dela pelo sentimento de tristeza que assola o país, até porque também somos servidores públicos há mais de dez anos sem aumento. 

Teremos páscoa, só que comedida. Bem, fomos as duas ao supermarket. Ovos de páscoa? Somente para o sobrinho de 2 anos. Ela, apesar da vibe "estamos em crise", ainda comprou bombons para o marido dela e para mim. Sem ganhar nada, contudo, lamentou-se durante o domingo de páscoa com a máxima "não ganhei sequer um bombom", esquecendo-se de que estamos em crise e que temos que evitar gastos supérfluos. Esquecendo-se, inclusive, da sua intolerância à lactose (essa, de todas, foi a melhor justificativa que usamos pelo que jamais foi um esquecimento, ma sim uma economia - crise! - e preocupação com sua saúde). Mas, cá entre nós, mais gostoso e saboroso que o chocolate que ela deixou de ganhar, foi a oportunidade que ela teve de nos apontar o dedo para que nos sentíssemos culpados o suficientes e dizer com todas as letras: eu lembro de todo mundo, ninguém lembra de mim. Todos os aquarianos são assim?

A história não acaba por aí. Tínhamos que comprar peixe para a sexta-feira santa e o famoso bacalhau para o domingo de páscoa. Apesar de não sermos católicos, embora sejamos batizados e crismados, confesso que seguimos mais esse costume por uma questão de tradição do que por fé. Fé tenho em um Deus de amor, que me faz pensar não querer muitos sacrifícios da nossa parte. Mas, isso é assunto para um outro momento. Voltando ao peixe, enquanto pegava umas verduras aqui e acolá, minha irmã ficou com a missão de escolhê-lo. Mal sabia eu que se tratava de um peixe com umas 4 postas bem pequenininhas. Descoberta essa que só aconteceu na sexta. Meu cunhado e eu nem acreditamos no que víamos, enquanto minha irmã, ao argumento de que estamos em crise, ria da sua descabida economia sem fim. A que ponto chegamos?

E para lembrar que em tempos de crise, realmente temos que colocar o pé no freio, o almoço servido no domingo de páscoa foi um delicioso peixe tipo bacalhau, o qual nunca saberemos de que peixe se tratava, numa receita clássica: Bacalhau a Gomes de Sá. Com muitas azeitonas pretas, batatas e ovos, os convidados desse domingo jamais saberão que foram ludibriados por duas irmãs que só queriam economizar. Afinal, o sabor estava muito bom. Não sou nenhum pouco modesta. E ainda que tenham desconfiado não se tratar de um legítimo bacalhau, ora... estamos em crise... e páscoa é sempre tempo de perdão, não é não?




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