quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A Resistência

Um amigo em passeio à Patagônia Argentina, adentrou em uma livraria e pediu ao atendente que indicasse alguns livros de autores argentinos. Um deles foi A Resistência de Ernesto Sabato. Meu amigo ficou inebriado com a leitura, achou o livro simplesmente fantástico (detalhe: ele leu em espanhol). De volta ao Brasil, próximo ao Natal, ele resolveu me presentear com um exemplar. Curiosa que sou, depois de tantos comentários fascinantes que ele fez em relação ao livro, de imediato me pus a lê-lo. Li em uma semana, leitura fácil, rápida, fluente. O meu exemplar era em português, ainda bem! Rs. 



O autor faz uma crítica ao mundo contemporâneo, analisando os atuais valores. Numa visão totalmente humanista, Ernesto Sabato nos propõe um mundo mais solidário.

No primeiro parágrafo do livro, ele já demonstra sua decepção com o mundo e a esperança de dias melhores: "Há certos dias em que acordo com uma esperança demencial, momentos em que sinto que as possibilidades de uma vida mais humana estão ao alcance de nossas mãos. Hoje é um desses dias."

O livro nos faz refletir sobre o louco mundo em que vivemos, no qual cada vez mais estamos longes da paz, da tranquilidade, longes de nós mesmos. Estamos alienados, totalmente influenciados e manipulados pelos meios de comunicação. E acreditamos piamente que precisamos deles para estarmos instruídos, antenados, vivos! Quanta loucura, não? Rs.

"É urgente reconhecermos os espaços de encontro que podem nos salvar de ser uma multidão massificada assistindo isoladamente à televisão. O paradoxal é que essa tela nos dá a sensação de estarmos ligados ao mundo inteiro, quando na verdade ela nos rouba a possibilidade de convivermos de forma humana e, o que é igualmente grave, nos predispõe à abulia. Tenho dito em muitas entrevistas, em tom de ironia, que "a televisão é o ópio do povo", alterando a famosa frase de Marx. Mas de fato acho que estamos ficando entorpecidos diante da tela, e mesmo quando não encontramos nada do que procuramos, continuamos lá, incapazes de nos levantar e ir fazer algo de bom. Ela nos tira a vontade de trabalhar em algum artesanato, de ler um livro, de fazer um conserto na casa enquanto se escuta música ou se toma um mate. Ou de ir ao bar com um amigo , bater papo com alguém da família. É um tédio, um fastio que nos acostumamos "por falta de coisa melhor". Ficar sentado monotonamente diante da televisão anestesia a sensibilidade, torna a mente lerda, prejudica a alma".

"Vi em alguns filmes que a alienação e a solidão têm chegado a tal ponto que as pessoas tentam se amar por meio de um monitor. Isso sem falar nessas mascotes artificiais inventadas pelos japoneses, nem sei como chamam, que a pessoa cuida como se tivessem vida, porque manifestam "sentimentos" e é preciso falar com elas. Quanto lixo! E como é trágico pensar que essa é a maneira que muitas pessoas têm de expressar seu afeto!"

"Nem o amor, nem os encontros verdadeiros, nem mesmo os profundos desencontros são obra do acaso, e sim algo que nos está misteriosamente reservado. Quantas vezes na vida me surpreendeu a maneira como, entre multidões de pessoas que existem no mundo, acabamos encontrando aquelas que de algum modo possuíam as tábuas do nosso destino, como se pertencêssemos a uma mesma organização secreta, ou aos capítulos de um mesmo livro! Nunca pude saber se reconhecemos essas pessoas porque já as procurávamos, ou as procuramos porque elas já rondavam nosso destino" (Acho que esse foi o trecho mais lindo do livro. Lindo! Lindo! Lindo!)

"Uma coisa notável é o valor que aquela gente dava às palavras. De modo algum eram uma arma justificativa. Hoje todas as interpretações são válidas, e as palavras servem mais para nos desonerar da responsabilidade sobre nossos atos do que para responder por eles".

"Temos de reaprender o que é satisfação. Estamos tão desorientados, que achamos que satisfazer-se é ir às compras. Um luxo verdadeiro é um encontro humano, um momento de silêncio diante da criação, fruir de uma obra de arte ou de um trabalho bem-feito. Satisfações verdadeiras são aquelas que embargam a alma de gratidão e nos predispõem ao amor. A sabedoria que meus muitos anos de vida me trouxeram e a proximidade da morte me ensinaram a reconhecer a maior das alegrias que podemos ter na vida, embora ela não seja possível quando a humanidade passa fome e tem de suportar os mais atrozes sofrimentos".

Incrível, não?



Ernesto Sabato é físico, mas, há algum tempo, vem se dedicando à literatura. Em 2011, completou 100 anos, quando, então, concebeu esse livro.

Leitura super recomendada!

Um comentário:

  1. Procurando uma tradução de um texto do Ernesto Sabato achei seu blog e me alegrou saber que existe uma jovem com tanto gosto de viver e compartilhar experiências. Parabéns e obrigado!

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